sábado, 10 de dezembro de 2011

Tem servido de canto esta entoada em descanso, pedindo pra não se atrasar. Mas tem este desconcerto em notas, partindo as portas, rangendo estas contas no meu pensamento. Estas batidas de todos os dias virando canções, virando ritmo,

domingo, 4 de dezembro de 2011

É vendo a exposição 'Cidade Adoniran', no Sesc Consolação, que começo a me perguntar de mim, outra vez, outro tempo, de minha inspiração [?!]. O que faço do que fiz dos sentidos que se atravessam em mim?
Devo fazê-los ressoar.
De outra volta, esta nova descoberta, Manoel de Barros e o desprendimento do que quer que seja, e não se o sabe, essa tal inspiração.
Tenho de ensaio uma saída.
Captada pelas fotografias de São Paulo musicadas em trilhas recortadas, de músicas do pai do samba paulistano, isto é contemplação.
Fazia tempo que eu não escrivinha? Nem tanto. Nem fazia tanto também que algo me prendia. Fazia, sim, um tanto que algo não me capturava em sua novidade recorrente, ressoante em mim. Penso sobre este nome, lugar que situa o sesc - Consolação. Quen há de ter nomeado?
Não posso deixar de lembrar da música de Tom Zé, que em tom de pesar, ritma o alívio por ter ocorrido, entre a Augusta e a Angélica, de nascer a Consolação.
Parecem duas cidades diferentes. Há tanto espaço. As pessoas sentadas em poltronas confortáveis cochilando. A pressa foi embora, à barraram na porta e não deixaram-na entrar aqui. E eu, depois de ficar hipnotizada olhando a 'Cidade Adoniran', vendo São Paulo pelos olhos do artista Otávio Valle e 'ouvidando' o acompanhamento do sambista; agora observo os transeuntes e os dorminhocos. Espero a fome chegar para almoçar e me distraio pensando em mim mesma escrivinhando estas linhas. Esta Terra da garoa que me aguarda, que me agrada. Me sinto em meu lugar.
Observar sem querer entender. Sem pensar em nada. Deixar que a coisa fale por si. É como ler repetidamente algo que não se está compreendendo, um parágrafo. Num determinado momento ele se dirá - é como vencê-lo pelo cansaço. É uma batalha travada nas linhas.

Eu quero ser artista. Quero ser poeta.
Não quero mais tentar entender coisa alguma,
quero deixá-las que se falem por si.
Que se deixem apresentar.
Quero ver além dos meus olhos. Transver
o mundo, em idiomanuelês. Sou uma tola.

A máquina fotográfica é
a desculpa com que o fotógrafo,
se permite lentiar o tempo e
contemplar um momento.

O fotógrafo tem o controle do tempo do mundo. Quando ele finalmente clica a foto,
...então a vida pode voltar a correr em sua pressa.

Sou uma preguiçosa - fato.
Por isso contemplo e devaneio. Sou vadia.
Recuso-me a não resistir, só por força de
oposição, só por tentar uma outra coisa e
uma possibilidade a mais.
Sou do contra à favor
a criatividade, pelo 'o quê mais pode ser'.

Sou uma pessoa bipolar. Tenho picos de criatividade e quedas de produtividade que se alternam. Tenho crises e questões que ora me conduzem ao movimento, ora me prostam numa ausência de vontade de acordar.
Quero e não quero no mesmo dia e hora. Mudo de idéias mais uma vez. Faço e desfaço. Revejo e mantenho descaso. Não me decido.

domingo, 13 de novembro de 2011

me falta uma falta a quê cincurdar.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Quis fazer um ode, que inconformada. E quis, sim, fazer um ode ao desconforto que me encaminha e acompanha. Duvido que alguém duvide que acompanha. Quanto ao encaminha, sim encaminha, pois segue sendo desconforto de estar, de transparecer, de sentir, de deslocar, de reverter, reberverar, de escurecer, de se banhar, desconforto até de se deitar.
Delineia cuidadosamente, ainda que doidamente, o contorno impreciso, tão impressivo de prender as mãos ao chão, de não partir pra nada. Sendo desconforto segue incomodando. Implica o desconfortável, este sujeito assujeitado, na sua mais irrespondável melodia, em sua liberdade transeunte, tão impertinente.
Pode ainda o desconforto me fazer ansioso, mas não me fará um cínico; que cínico me faz a minha covardia de em quando sofre, mas não este desconforto pálido, arredio e persistente. Caminha paciente me deixando suspirar. O que quer que seja, sou este desconforto traduzido em pele e palavras, sou um pouco do desmaio da manhã, sou também a cafeína. Sou, por fim, enfim, um pouco de meu próprio incomodo.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

domingo, 14 de agosto de 2011

Passava dias sem se questionar, sem perceber, sem nem mesmo acordar pro que sentia; então vem me perguntar ‘quem é este que sonha que não posso ser eu?’. Também não espera resposta. Sai tagarelando, andando pela sala e fuçando nos pacotes da mesa. Finalmente sai, deixando atrás de si, entre nós, esta porta pálida com aquele adesivo colorido que ninguém sabe quem o colou e todos queriam tê-lo colado. E cá estas horas da tarde, já tarde, deixa-me aqui, me remoendo aos pensamentos circulares sobre o que será que isto quis dizer.
Tenho pra mim, uns medos que são brutos. Que os medos são assim meio domesticáveis, mas novinhos ainda são brutos, meio inconsistentes, um pouco folgados demais. Chegam e vão ocupando tudo o que há de entorno até não caber, para então depois recaber no próprio que é o medo, e virar medo – de quê?
Fica cá uma dúvida, meio vazia, meio cheia, que não se sabe se tenta entender ou perde-se logo por um trago. O pensamento irrompe aquela porta fechada e acompanha calado o movimento dele, que há pouco se foi, que já deixou-me por detrás da porta e que agora está envolto demais nos próprios pensamentos pra perceber que era importante, que percebia. Obsessivamente pensante demais pra lembrar de quem deixou por detrás da porta, também obsessivamente pensante.
Outra hora volta. E faz novamente uma pergunta traiçoeira, me deixa inquieta e vai embora – estranhamente – sem apaziguar.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

       Ainda que eu escrevesse de mim, seria mentira. E seria tão só, esta meia verdade indisfarçada, mal descompartida e irrefratária. Não há meios de me dizer. E isto, só o digo, porque estas palavras na minha boca, do papel e pelo texto, podem fazer voltar a incoerência da percepção que sou - não sou, fato.
       Estes versos inimpoéticos, pouco despretendidos, mal sabem se caber em si e não andam bem das pernas. Não sabem dizer mais do que dizem e suspiram o óbvio enquanto tentam fugir da mesma linha já escrita. As cartas tão amarrotadas, presas na poeira daquele baú embaixo da cama. Estas cantigas insanas.
       Sofre um varal de meio dia com um sol tímido batendo sobre as folhas molhadas, poemas quase perdidos, salvo por um minuto de concepção. As ilusões, estas sim, são verdadeiras, devem ser salvas e só dizem de honestidade. As minhas letras, estas não, mal mentem e sabem-se mentindo muito mal. Perdidas que são, nem tentam mais indagar justiça, veracidade, não mais; contentam-se agora com o calor do descaso passando por perto, ali, próximo a um ramo desfolhado, solto ao piso branco.
       Vi um certo dia, Jundiaí, interior paulista, um varal de poesia. As folhas penduradas, secas, tão limpas que me faziam inveja da clareza com que se escreviam. E o correr dos passos dos passantes embriagados, impercebidos. Era cenário lírico. Fiz meu ode.
       De tanto escrever, quase nada disse. Não teve esforço, nem tão pouco intento. Já foram todos avisados, dizer de mim, seria mentira. As palavras que faltam o fazem melhor. Melhor então é permanecer ausente.
É justo que se possa retomar o ponto. Desde que o entrefio da meada esteja devidamente desenrolado, fiapos cortados e espessura interpretada. Foi de novelos em escadas que os gatos se fizeram. Notaram um dia que tinham de cair ao chão, e para não cair de qualquer jeito - caprichosos que são - se fizeram gatos, para então cair de pé. E que seu pulo em salto é elegante, pois a vaidade permitida é vigor e projeção animalesca do convívio. Impuramente destemido, as unhas ferinas, felinas, partem a pele em lascas de comiserações. Partidos despercebidos. Me pus a falar de gatos, não sei bem por quê... a felinidade deve estar às voltas.

sábado, 16 de julho de 2011

Meu coração quer cantar. E quer dizer que algo que não sabe ao certo aconteceu... e não é só na Ipiranga, não precisa nem da S. João, Caetano. Entre as angústias pelas indeterminações e as possibilidades diversas de determinações, quanta coisa que fulgura, pulsa, desritmicamente compassado, é só. Av. Paulista que te quero toda, a noite toda, vazia, vagante... como a vaga música de Cecília, como o mergulho marítimo de Lispector. Sou um quadro de Dali, uma pintura sincopada. Sou a figura entoante dos versos descabidos e dos incabidos, tão despercebidos. Vítrais.

domingo, 19 de junho de 2011

Ciúme ou ciúmes. Singular ou plural. Vem sozinho, ou será que vem acompanhado de outros tantos ciuminhos? Irritantemente penetrante, este ciúme ou ciúmes vem e se encosta vez ou outra e sempre naquelas horas em que se podia ficar tranquila, mais um tanto, mais um tempo.
Estou em casa, faminta, e eis que ele chega, também faminto. Depois de nos desesperarmos com a falta de comida em casa e a restrição de possibilidades, começamos a buscar na dispensa algumas poucas coisas como ervilhas, milho-verde, creme de leite, uma cebola quase estragando na geladeira e um solitário pimentão verde. Só falta o macarrão e o molho vermelho - falta tudo! Por sorte tem uma padaria há poucos metros e ele desce para buscar o que falta. Macarrão ao molho rosê com condimentos disponíveis. Não estamos tão mal.
Ele chega e estou picando a cebola, uma cabeça de alho encontrada no fundo da gaveta da geladeira e o pimentão solitário. Comigo numa conversa ele adianta a água para ferver na cozinha. E aí começa: - Você vai por tudo isto de pimentão? Pimentão é só um pouquinho!
Ok. Parei. - Mas logo em seguida ele arremata: E o alho, tem alho? Você colocou? - Não, eu não havia colocado, ok, ok, vou cortá-lo. A verdade é que eu havia ficado com preguiça, mas vamos lá.
Estamos na cozinha, enquanto faço o molho - Não vai por a pimenta? - Calmamente, foi calmamente, com um esforço colossal mas eu disse calmamente: Sim, depois. - E ouvi de resposta: Ah.
Segundos depois e a insistência: Mas você pôs o creme de leite, agora a pimenta não vai pegar, vai empelotar tudo!
Sem tanta calma assim, respondi: Quem tá cozinhando aqui?! (e risos que é pra descontrair...). Fique calmo, eu sei o que estou fazendo, sempre fiz assim.
Mais uma intervenção: E a pimenta, não vai botar?...
Admito de imediato, das poucas coisas que tenho ciúme(s) no singular ou no plural: NÃO DÊ PALPITE ENQUANTO EU COZINHO. - Tenho ciúme da minha comida!

sábado, 18 de junho de 2011


Entre um trem e outro, foi ali mesmo sentada num banco aleatório que a avistei. Esta mulher, negra, com seu filho num carrinho, ela carregava toda sua tristeza nos olhos. Seu filho tinha alguma deficiência. E esta mulher, com seu olhar triste não expressava revolta, nem tão somente a dor, mas uma resignação que me doía apertado no peito. Meus olhos iam mareando, querendo desaguar. Eu me segurava, não era lugar para chorar. Não queria que ela me visse chorar. Alguns bancos ao lado e haviam dois surdo-mudos conversando. Todas as outras pessoas pareciam estar alheias, mas quem sabe, talvez estivessem presos nesta captura do olhar resignado daquela mulher. Ela me doía tanto. Dava de comer a seu filho com uma paciência tímida, serena, sem expectativas nem pressa em terminar o ato. Me doía. Eu queria chorar. Seu filho então começou a falar, resmungar alguma coisa pouco compreensível. E sorriu. E então esta mulher sorriu. E então a tristeza resignada de seus olhos que me faziam querer chorar se dissipou e o nó da minha garganta se desfez. O rapaz de frente a ele começou uma conversa, brincar com o menino, a mulher sorria e conversava com os dois. Fui tomada de uma alegria que surgia de algum lugar dentro de mim que não sei precisar, mas vinha de fora, mas vinha do íntimo. Que experiência. Um vagão de trem. Um dia tão grande que nem coube em si, tão cheio de alegria que se tornou!

terça-feira, 14 de junho de 2011

Parei de achar que as notas tem de ser claras, que as medidas tem de ser retas e as composições tem de ser descomedidas. Preferirei, desde o agora, a imprecisão do meu silêncio.

domingo, 12 de junho de 2011

Psicologia clínica / Psicanálise - próximo ao metrô Sumaré e a Av. Dr. Arnaldo - São Paulo/SP.
Vez por outra uma digressão. Desta, por divulgar minhas atividades em atendimento clínico.


segunda-feira, 23 de maio de 2011

VAMOS VIAJAR? Vamos viajar, Clarissa. Pega esta mala e enche de vazio. A gente entra num ônibus, rouba um carro, ou vai pra estrada pedir uma carona com algum desconhecido qualquer. Vamos? Vamos Clarissa, vamos viajar?!
Deixa de lado toda essa marra e faz de conta que a gente nunca teve um plano que deu errado, nem sabemos se deu... Faz de conta, nós duas, que cada perigo era tão descomedido que tínhamos mesmo era de cair pra poder nos ralar. Vamos, Clarissa, veja lá. Você com este sorriso, tem todo este dengo, este trejeito moleque. Para de mexer no queijo, deixa aí que eu vou limpar. Clarissa, não me enrola. Vamos viajar?
Tenho certeza, que a gente falha de novo, se desespera e recorda estes momentos loucos um dia, um dia em breve, talvez qualquer dia... longe... mas precisamos antes Clarissa, de ir viajar. Quero este sorriso e a leveza em mim... pra poder ir já.
Sou um clichê barato rabiscado num papel, no fundo apático da gaveta. O que me tolhe as palavras são esses gestos presos em soluções e que me fogem nas águas. O rascunho colado à porta, perdido para sempre. Às vezes me sinto um clichê. Pois é isto o que sou, um clichê em cena. Translúcida nalgumas horas, imperceptível na maioria das outras. Mudo de idéias, troco os pensamentos em instantes. E mesmo assim, continuo incansavelmente a mesma, tão clichê. No fim de tudo eu quero um gole... e me desvencilhar desta pele humana. Tão vadia...

A vida é mesmo um clichê ...quanta humanidade sufocada.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

ô nega.... feliz.
Tudo feliz. dias, semanas, momentos, instantes e pequenas borboletas pelos seus minutos. Amores que te façam sorrir, mas que te façam chorar também - que a dor nos faz sentirmo-nos, nos faz conhecer o próprio corpo, saber de si, de onde dói, de onde acolher, de onde acarinhar...
Muitos doces, pra que você engorde e se olhe muito, muito mesmo no espelho pra se lembrar de como é bonita, seja com quantos quilos for.
Que você tenha tristezas, pois nenhuma vida é completa sem tê-las. Seríamos seres muito tristes sem a tristeza. Não precisaríamos de colo para nos deitar, nem de mãos para enxugar nossas lágrimas; que a alegria, esta a gente abraça e se abraça, mas é de dançar vivamente. A tristeza não, ela dança... mas tem ritmo de suspiro.
Te desejo um tênis sujo de muitas andanças. Cansaço de tantas escolhas e sono nos olhos de tantas belezas contempladas.
Desejo que tenha uma vida só. Nem mais, nem menos. Que você saiba vivê-la na medida, assim, erroneamente caminhante... como ninguém mais saberá criá-la.

Eu lembro que te amo só de vez em quando, viu.... no resto do tempo eu esqueço de lembrar... e amo, só.

sábado, 7 de maio de 2011

As histórias são sempre recortadas. Isto, porque os encontros já começam incompletos, vindos de algum lugar que não sabemos onde. Apenas nossa própria história na bagagem, sua indefinição típica e algumas lembranças meio apreendidas, meio sufocantes. Ah, quantos suspiros ainda rogo pelos cantos esquecidos do meu peito...
Cada um, ao se deparar com o outro neste cruzamento vivído, cotidiano, tão casual, traz seus próprios livros com páginas rasgadas, fotografias recortadas, esverdeadas de bolor, amareladas de café caído sobre o papel. Cada um traz ainda os sonhos despedaçados e as esperanças renovadas. Somos mesmo peixinhos dourados – nossa memória afetiva comprova. Que bom!
Com toda esta elaboração que viria a articular dias mais tarde, encontrei-a num cruzamento, deste, qualquer um na vida. Ainda me lembro, claro, Viaduto do Chá. Entre a multidão transeunte, tão insignificante que acredito que a notei pela absoluta falta de notoriedade que possuía. Incrível. Paulistana, como eu. Vida cotidiana comum desta terra que garoa, muito trabalho, muita correria, poucas estrelas no céu da noite. Só uma coisa está errada na imagem – o cinza. A Paulicéia não é tão cinza, talvez um pouco desvairada, necessidade do amor.
Pouco a frente, nas escadarias do Teatro Municipal, quantas lembranças... uma única vez entrei neste grande marco artístico. Estava de chinelos. A visão romântica que me acompanha é ímpar, tenho certeza. E nestas mesmas escadarias ela, tão pouco impressionante, se sentou num canto tímido. Não arrumou seus cabelos bagunçados do vento, talvez não se importasse. Não olhou em volta, nem mesmo cruzou comigo seu olhar. Nada de magia, nada de brilho. Assim mesmo, tão banal... acho que descobri (outra vez) o amor.
Quando passei por ela não parei. Segui meu caminho indiferente... não podia deixar isso acabar. Não poderia matar o platonismo, estragar o amor, só por cortesia. Que dia mais feliz... descobri o amor numa esquina.

sábado, 23 de abril de 2011

vez por outra...
...outra noite quase sóbria.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

       A calçada empoeirada estende-se pelo terreno também sujo. A areia espalhada pelo chão tão dispersamente, de um descuidado preciso. Aquele amontoado de ferros, tábua e corpos se misturam num movimento irritante. De uma sonoridade irritante. Mas haviam os cômodos vazios. Ah, os cômodos vazios, de paredes não rebocadas naquele sobrado inacabado. A exata imagem de meu eu.
       Esta metáfora buarquiana da vida, no descompasso dos amores partidos, das promessas invividas. Tanto tédio dissipado num cenário em construção. Quanta ousadia. O verde ali era cinza, por conta do cimento que ia percorrendo cada canto milimétrico daquele espaço e apagando com furor as cores já tão precárias.
       Dona Antônia, todo fim de manhã, todo fim de tarde, trazia nas mãos cansadas um jarro cristalino de água. A cor sem cor tão brilhante reluzia nos olhos, devolvia a vida. Devolvia a arte. Os corpos dos pedreiros pareciam retornar a si. Se haviam tido cansaço, se haviam partido para algum espaço, retornavam. Dona Antônia não era samaritana, nem tinha escolhido uma religião além do batismo de criança que não lhe perguntaram o gosto que fazia. É que acreditava que existem coisas que não se questionam no universo, coisas imutáveis, como a sede.
       Retornava a sua casa ao fim do jarro e uns dois dedos de prosa. O trabalho recomeçava, a construção precisava vingar. O jarro cristalino ia para poder voltar. Quando retornava ao fim da tarde, os pedreiros quase batendo o ponto, o jarro novamente invadia aquele espaço tão cinza. E Dona Antônia, ritualísticamente, ao fim de cada dia dizia aos seus meninos empoeirados de cimento, tão invisíveis de sem-cor, que bebessem água antes de se deitar, pois com sede, a alma pode se levantar durante o sono e não mais voltar.
       De boa índole que eram, todos, sem exceção, à semelhança de um menino respondendo aos cuidados da mãe, realizavam o carinho da velha. E tinham o sono que tinham, que não era suficiente. Algo assim, fatalmente cotidiano nestas terras de Brasil.

sábado, 2 de abril de 2011

Eu tenho saudade, porque o cheiro mora longe, mas o vento invade e embrigada. Tenho também estes meses de amores, estas semanas de distâncias e as lembranças de um niño quase novo, tão encarante com seus olhos pseudo-claros. O narizinho de suas mães, a natural e a que contempla... eu; eu tenho mesmo estas saudades que moram comigo. Vou mandar elas de volta... e vou depois praí buscá-las.

terça-feira, 29 de março de 2011

domingo, 20 de março de 2011

quinta-feira, 10 de março de 2011

[Diálogo em Si]

EU - Tenho descompassos partidos em mim. Sei, sei, eu já sabia. Ofereço aos amigos e às canções. Aos fragmentos que em mim se encontram.
ELE - [inaudível].
EU - É nisto que acredito. Penso sempre neste lado meu. Sei que você sempre me apontou, mas não, não era bem assim.
ELE - [inaudível].
EU - Tecia. Alguns cálculos foram seus, mas o limite exato de parada sempre foi meu próprio estômago quem pôs na cena.
ELE - [inaudível].
EU - Agora está tentando me ferir. Não faça isto com tantos porquês e poréns.
ELE - [inaudível].
EU - Sim, o mousse de maracujá está na geladeira.
ELE - [inaudível].
EU - Talvez só não haja tempo. Ou há tempo demais para ficarmos aqui. Trancados em nós mesmos, presos num corpo.
ELE - [inaudível].
EU - Eu avisei. Sutilmente, eu sei, foi covardia. Mas foi delicadeza também, e talvez generosidade. Eu avisei-te sem te afugetar... mas acabou que não deu certo.
ELE - [inaudível].
EU - Não sei se é pena... você acha?
ELE - [inaudível].
EU - Ah, sim, claro. Eu faço isto, pode deixar. Não será tão doloroso. Acho apenas que estas perguntas não servem pra responder a nada. Não vão encontrar algo que não está aqui. Talvez esteja na gaveta da sala.
ELE - Eu pego pra você. Deite aqui... [um estalido de beijo...]. Boa noite.
EU - Mas não se perca. Volte. Me sinto um tanto... descompartida.

segunda-feira, 7 de março de 2011

     E olhando no espelho, ele viu aquilo que um dia já deve ter sido.
Jamais fomos humanos. Mas nestas aparências mentirosas, temos a única chance de percorrer algum caminho menos tropeçante e fazer poeira por onde passamos.
     Destes pensamentos desencontrados e sua imagem no espelho, a cara cheia de espinhas e os olhos vermelhos de tanto baseado na cara, suas lembranças jogaram-no longe da história que se passava na sala.
Perguntava-se: porque tinha este sentimento desperso e impulsos que não sabia conter?
     Abriu o armário de remédios tão rapidamente que um barulho estridente da porta ragendo ecoou. Por sorte, os que estavam na sala falavam todos ao mesmo tempo e com tamanha voracidade, que não podiam ouvir nada mais do que o próprio pensamento antecipado a responder algo que não prestaram atenção e deviam rebater. Talvez sejam comunistas, socialistas, grevistas, esquerdistas, maquinistas, lojistas, figurinistas, ...qualquer ista que não faz mais do que catalogar certa medida de segurança, uma etiqueta para se manter distância e as devidas condições sanitárias.
     No armário de remédios encontrou um batom, vermelho. Não ousa causar tamanho estranhamento em seu rosto. O que não sabia, é que nesta idade, os outros que estão na sala nem se quer notariam, preocupados sempre com o próximo dizer sendo devidamente tecido nas redes das fantasias projetadas da mente de cada um. Uma conversa de surdos.
     Mas tinha nas mãos o batom e um sentimento de extravagância que subia dos calcanhares aos lábios. Teria vergonha de voltar a olhar os companheiros da sala com aquela maquiagem destacada, nova, estranha... passou o batom, e saiu pela janela. De manhã, foi só aí que notou a loucura em que estava, era um estrangeiro, nada falava do idioma daquele país. Saiu a andar, vagando... uma hora ou outra chegaria a algum lugar... Estava feliz.
Um homem dos vinhedos falou, em agonia, junto ao ouvido de Marcela. Antes de morrer, revelou a ela o segredo:
- A uva - sussurrou - é feita de vinho.
Marcela Pérez-Silva me contou isso, e eu pensei: se a uva é feita de vinho, talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é.

Eduaro Galeano - O livro dos abraços. Porto Alegre: L&PM, 2006.

sexta-feira, 4 de março de 2011

          Figuram memórias tão indecisas quanto falsas. São claras e precisas, mas são verdadeiramente falseadas se destacando do fundo da cena. Precisava me expressar, dizer, linguagear algo... foi feito. E não sinta-se convocado a me responder. É como dizer - Não pense em elefantes? E no que é que você está pensando agora? Esta percepção não é nova, é expropriada de um seminário psicanalítico. Fulguras e lantejoulas pro colorir de um dia.
          Veio o silêncio quando nenhuma resposta chegou para o calar. Silenciar o silêncio, foi o que faltou de uma resposta nunca vinda.
           Muito tempo se passou, e o que é muito tempo ninguém sabe de certo quanto tempo é, mas é que se passaram os tempos, algum tempo, plural e tão singular... e alguma resposta veio. Uma imagem se formou com o que havia de não dito, de inaudito, em toda diagramação. Não chegou de algum lugar, foi um significante de surpresa quando, de volta os resquícios das mesmas letras, a mesma música, a mesma inscrição de onde não se veio resposta, eis que ela mesma, a resposta, aparece de assombro como em forma de constatação.
          O que há de se responder quando não há resposta. Há sempre uma resposta que fica, em sua total falta de verdade, ela sempre aparece e fica. De respostas cortantes, quando a resposta fere o que se quer bem, nem tanto se quer... um tanto de bem-dizer, de bem-querer... que se há de fazer? Há deslindres de palavras pouco usadas. Bicicletas circulando. Ladrilhos, latidos, des-orientação e sentidos forjados. ...calemo-nos. O silêncio que me falseia a respostas, de tanto tempo entendido então... desvelou a imagem tão clara que ofuscante.
          O silêncio em generosidade. E é tanta.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Relembro bem este saborear de literato. O ritmo imposto, acompanhado, é Marcelino. Há tempo que ando me esquecendo - velhos hábitos. O deslizar da escrita que segue indicando suas pausas, suas irrupções, suas continuidades melódicas. Gostar de literatura não é um traço tão singular. Não importa. A sincronia estabelecida entre o leitor e os arranjos sonoros da atmosfera cronistica faz dele um verdadeiro escritor. É sintonia como nas energias, como na música e no tom.
Enquanto cospe sílabas e fonemas pelas páginas, sejam virtuais ou de papel, não as cospe aleatóreamente, sem intencionar. Por todo o corpo da cronica rasgada nos fere a sensibilidade contagiante. Tem ritmo, ah, isto tem. Convoca-nos ele a dar vazão na voz aos tropeços e deleites da cena formada antes por ele, agora por nós.
Sinto-me como numa dança, onde os passos devem ser apreendidos e delicadamente transpostos, passando de uma marcação a outra. A literatura de Marcelin Freire é assim. Traz uma sutileza cúmplice nos meus dias. Traz uma agudez que arranha minha sensibilidade hipócrita e muda. E finda belamente, deixando algo por ficar...

* Marcelino Freire é cronista, autor de Da Paz, ao qual tive o imenso deleite de ouví-lo recitando. E também de tantos outros escritos de tom.

Da Paz está neste blog, no link: http://artspretensosistas.blogspot.com/2010/08/da-paz-marcelino-freire_11.html

Vídeo de Marcelino recitando Contos Negreiros:http://artspretensosistas.blogspot.com/2010/09/marcelino-freire-e-fabiana-cozza-contos.html

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Quando foi que perdemos a mão e a rotina dos dias normais virou monotonia?
 

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