sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O que não devia ser é isto. Esta dor flagelada. E flagelos em pequenos pedaços, tão fragilmente ligados, suspensos na incerteza da própria dor.
Entre uma bricolagem de fatos, meus sentidos se perdem, pois enquanto tento desesperadamente aparar alguma última aresta, tantas outras me ferem a sangrar esta dor.
Esta dor embriaga. Já não me paralisa. Agora é a sensação triste de pertencer, de pertencer apenas a mim.
Sabendo que é sempre este exercício de remendo, colar fitas e grampear retalhos, grudar pequenos botões... assim é o estar, estar passando.
De várias nostalgias misturadas, por vezes é impossível saber o que se pretender, o que se sente. Mas sente-se não saber o que se faz. Arrepende-se de algo, de algum 'não sei bem o quê'. Como se faz para deixar a renda contornar?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

As pessoas são uns pedacinhos de histórias, uns fragmentos, tão inacabados que a gente vai se refazendo numa bricolagem que é a própria vida. Nossos mal entendidos tão desentendidos, nossos sentidos afetados e às vezes esquecidos, nunca apagados. Somos os nossos próprios nós na garganta e passamos caminhantes como quem vacila, entre o esperançar do próximo passo e os resquícios mal resolvidos de antes, de agora, de ser o próprio ser, em si, mal formado, sem acabamento final. Vai ver é por isso que um dia esquecemos, vez por outra, de perguntar quem somos. Que num determinado ano, depois de crianças, deixamos de perguntar o que nos encabula, as perguntas que não podemos responder... As pessoas são mosaicos. E numa empadaria, eu vi um tão lindo, entre vários, mas estava ali, brilhante, discretamente se haviam duas pessoas, de frente uma a outra, em mosaico do ser que não se é. As pessoas são de cores estranhas, ora sujas, ora cintilantes. Mas são sempre de bricolar. Cola e papel, dá pra fazer um mundo com materiais de pré-escola...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Leve

DonaZica

Composição: Iara Rennó e Alice Ruiz
viver ou morrer
é o de menos
a vida inteira pode ser
qualquer momento
ser feliz ou não
questão de talento

Leve a semente vai
onde o vento leva
gente pesa
por mais que invente
só vai onde pisa


Dói. E faz pensar que arranhar a carne com a unha, até sangrar, não é assim tão mal. Não pode ser. Nem parece tão doentio imaginar outras dores na pele. As maiores dores não se toca. A gente sente e procura onde está. Num nó na garganta ou no peito. Ou um buraco no estômago. Uma naúsea que para de leve na garganta... só pra incomodar. Dói. Mas não consigo chorar... um dia passa... tem de esperar. Tem sempre de esperar...

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Você já percebeu o quanto um quarto pode guardar de alguém? E este alguém vai embora, e deixa o quarto. Mas o quarto não o deixa partir. Tenho algum problema com quartos! Eles sempre me parecem maiores do que realmente são. E mais interessantes. Eu lhes imagino histórias. Talvez, em parte, porque a minha própria tenha me deixado para ficar num quarto. Quando se entra no quarto pela primeira vez, e quando passa muito tempo dentro dum mesmo quarto ele parece pequeno. Sufoca. Não. Não é assim. Quando se passa muito tempo num quarto – e nunca é tempo demais, é só muito tempo! –, ele parece se expandir. Fica tão grande. E vários universos vêm se instalar nele. Parece infindável em suas dimensões. Então é assim... é. É assim. E as janelas. As janelas? – Mas que tem as janelas? – O que podem ter janelas? Não sei. Meu problema é com quartos. Achei que de janelas você pudesse saber... – Pois não sei. Vamos esquecer as janelas... Uh... Vou falar delas. Não são janelas da alma. Nunca foram. Foi por uma janela que fugi. Foi para evitar um olhar. Olhar pela janela,... talvez se tivesse sido apenas isto. Se não tivesse me atirado por ela em direção a quê? Nem sei. Você compreende? Entende que não sei o que dizer de janelas? Então deixemo-las. Que permitam que o sol entre ao quarto, que aqueça. Todos os mundos, todos os universos – que não é um –, que são meus e que deixei naquele quarto. Será que você ainda abre as janelas para o sol entrar? Havia um canto onde nunca batia o sol.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Eu penso esperar por algo ou alguém, pois é assim que a vida parece se dar. Fazendo parecer as mentiras e sugerindo atravessamentos que não estão lá.
Eu penso em constância. Em algo pra sempre perdido. Penso ter atingido a nulidade necessária pra deixar estar, mas me pego perdendo nos muros os buracos que permitem enxergar do outro lado.
Penso ter atingido alguma coisa. Que coisa? Ora, nem sei... mas algo há de chegar.
Nem que seja a fome que se sacie ou se consume. Nem que seja o corpo que, contornando, se esgote... no próprio esgotamento do impossível de se esgotar.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Para ler ao som de déjá vu, de Rita Ribeiro.

Uma prece. É uma prece mesmo. Porque se fosse uma canção romântica ela não falaria assim, observe a voz, o tom. Tanto lirismo embotado... mas é bonito. Se fosse noturna. Mas não, certamente não. É uma canção da manhã. Vai, diz se não te lembra o sol? Raios de sol reluzindo na pele das pessoas que caminham sob ele, nas ruas lotadas de pessoas correndo com suas contas e compromissos. Sei. Você não faz idéia do que estou falando! Não importa. Nunca importa. E se nunca foi importante, por que é que logo agora haveria de importar? É uma árvore de outono, que não tem folhas a se balançar no vento. Não, não. Não foi o que eu disse. É uma árvore DE outono, e não NO outono. É sempre assim mesmo. Isto não muda com as estações.



sábado, 25 de setembro de 2010

[quando+me+perco.jpg] 

Preciso dos devaneios ocultos das almas que cercam os dias. Preciso de um pouco mais de mim. Quando me perco, é olhando no espelho que percebo no fundo dos olhos, alto, na ponta fina do fio de luz que transpassa a retina, que já não estou. E me ponho a me procurar. Mas é preciso não esperar. É preciso distrair-se para se encontrar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Pulsa. Expressa o sopro. Procura. Sente. Desmente. Busca. Tensiona e relaxa. Chora. Goza. Impede, implora a fome. Tende. Independe. Suspende. Acorda. Os sentidos e afetos. Transbordam.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

leveza em gotas. o afeto de literalizar. do lirismo de ti. pouca coisa explica mais...

domingo, 5 de setembro de 2010

Tenho os pedidos do mundo soltos no coração. E eles se prendem, quando tentam alcançar um certo eixo de guia. Mira. E vai. Mira longe ou perto demais, mas mira por algo de onde busca, de onde alcança, de onde a passada ora breve, ora ansiosa, tende a se inclinar mais adiante. Mais a frente. A frente de nada, de uma ilusão. Corre com pressa, antecipa. Se perde. Mas na incompreensão do próprio nome, se deita e deleita de não saber quem é, e ir se refazendo em cada esquina.

sábado, 21 de agosto de 2010


gosto de ler gente que respira.
gosto de ler. a minha paixão por papéis também
quer ler as mãos, os pés,
as costas, o umbigo, os braços e os abraços...
Eu tenho sede. Que o meu corpo é dança, é véu, e pulsa sem parar.
Eu tenho os gritos do mundo em mim. E eles murmuram, alucinantes...


A dor que rasga é quando a palavra falta.
ela tentava trançar os véus com as mãos. mas precisava dos dedos daquele que não estava. tem de esperar...
o som queimando se aproximava da boca. um estalido no descolar dos lábios. Ela fumava um cigarro de palha... e devorava o livro de poesias à suas mãos.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O autor, segundo contou hoje na conversa "autores e idéias" promovida pelo Sesc-Londrina; escreveu esta crônica (?) à pedido de um jornal, quando do dia que São Paulo parou, por conta do PCC. Marcelino então relata que assistia a rede de tv, quando de uma propaganda com atores vestidos de branco e segurando uma rosa vermelha chamavam, não, chamavam não - segundo Marcelino, convocavam! a população a sair à rua em passeata no domingo, pela paz.


Eu não sou da paz. 

Não sou mesmo não. Não sou. Paz é coisa de rico. Não visto camiseta nenhuma, não, senhor. Não solto pomba nenhuma, não, senhor. Não venha me pedir para eu chorar mais. Secou. A paz é uma desgraça. 

Uma desgraça. 

Carregar essa rosa. Boba na mão. Nada a ver. Vou não. Não vou fazer essa cara. Chapada. Não vou rezar. Eu é que não vou tomar a praça. Nessa multidão. A paz não resolve nada. A paz marcha. Para onde marcha? A paz fica bonita na televisão. Viu aquele ator?

Se quiser, vá você, diacho. Eu é que não vou. Atirar uma lágrima. A paz é muito organizada. Muito certinha, tadinha. A paz tem hora marcada. Vem governador participar. E prefeito. E senador. E até jogador. Vou não. 

Não vou.

A paz é perda de tempo. E o tanto que eu tenho para fazer hoje. Arroz e feijão. Arroz e feijão. Sem contar a costura. Meu juízo não está bom. A paz me deixa doente. Sabe como é? Sem disposição. Sinto muito. Sinto. A paz não vai estragar o meu domingo.

A paz nunca vem aqui, no pedaço. Reparou? Fica lá. Está vendo? Um bando de gente. Dentro dessa fila demente. A paz é muito chata. A paz é uma bosta. Não fede nem cheira. A paz parece brincadeira. A paz é coisa de criança. Tá uma coisa que eu não gosto: esperança. A paz é muito falsa. A paz é uma senhora. Que nunca olhou na minha cara. Sabe a madame? A paz não mora no meu tanque. A paz é muito branca. A paz é pálida. A paz precisa de sangue. 

Já disse. Não quero. Não vou a nenhum passeio. A nenhuma passeata. Não saio. Não movo uma palha. Nem morta. Nem que a paz venha aqui bater na minha porta. Eu não abro. Eu não deixo entrar. A paz está proibida. A paz só aparece nessas horas. Em que a guerra é transferida. Viu? Agora é que a cidade se organiza. Para salvar a pele de quem? A minha é que não é. Rezar nesse inferno eu já rezo. Amém. Eu é que não vou acompanhar andor de ninguém. Não vou. Não vou.

Sabe de uma coisa: eles que se lasquem. É. Eles que caminhem. A tarde inteira. Porque eu já cansei. Eu não tenho mais paciência. Não tenho. A paz parece que está rindo de mim. Reparou? Com todos os terços. Com todos os nervos. Dentes estridentes. Reparou? Vou fazer mais o quê, hein?

Hein?

Quem vai ressuscitar meu filho, o Joaquim? Eu é que não vou levar a foto do menino para ficar exibindo lá embaixo. Carregando na avenida a minha ferida. Marchar não vou, ao lado de polícia. Toda vez que vejo a foto do Joaquim, dá um nó. Uma saudade. Sabe? Uma dor na vista. Um cisco no peito. Sem fim. Ai que dor! Dor. Dor. Dor.

A minha vontade é sair gritando. Urrando. Soltando tiro. Juro. Meu Jesus! Matando todo mundo. É. Todo mundo. Eu matava, pode ter certeza. A paz é que é culpada. Sabe, não sabe? 

A paz é que não deixa.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

 CADA LUGAR NA SUA COISA
(SERGIO SAMPAIO)

UM LIVRO DE POESIA NA GAVETA

NÃO ADIANTA NADA
LUGAR DE POESIA É NA CALÇADA
LUGAR DE QUADRO É NA EXPOSIÇÃO
LUGAR DE MÚSICA É NO RÁDIO
ATOR SE VÊ NO PALCO E NA TELEVISÃO
O PEIXE É NO MAR
LUGAR DE SAMBA ENREDO É NO ASFALTO
LUGAR DE SAMBA ENREDO É NO ASFALTO

AONDE VAI O PÉ ARRASTA O SALTO

LUGAR DE SAMBA ENREDO É NO ASFALTO
AONDE A PÉ VAI SE GASTA SOLA
LUGAR DE SAMBA ENREDO É NA ESCOLA

sábado, 31 de julho de 2010

Trecho de "o peso da feminilidade". De quando eu buscava no movimento, a arte e o descontorno. Quando não entendia direito o transbordamento e a possibilidade da angústia. Mas enquanto dava passos pra entender o movimento, e escrevinhante... partegei o último post!

O que têm em comum a arte, a psicanálise e a feminilidade? Que as três andem às voltas com a falta – até aí, nada de novo. Mais vale
dizer que a partir da falta, ou do vazio, ou de como quer que se nomeie isto que não há, tanto a psicanálise quanto a arte são expressões
do inacabado – o que faz com que só existam em estado de constante mutação. A feminilidade, não como aquilo que é próprio das
mulheres mas como aquilo que sabe gozar um pouco além do falo, nem sempre se põe mutante - mas tem certamente este potencial. Uma
vez que não gira (apenas) em torno do falo, pode arriscar movimentos centrífugos em direção a não sei onde. Uma vez que não se
constitui a partir de uma obsessão em evitar a castração, a feminilidade é um modo de gozar que pode arriscar um pouco mais na direção
de uma desmesura, ou seja, que aceita correr o risco de esbarrar na angústia, ou mesmos de ir um pouco além. Daí que, é claro, todo
artista, seja homem ou mulher, acaba (ou começa) por saber algo a respeito da tal feminilidade.

http://www.mariaritakehl.psc.br
A poesia transborda. E angustia. O mal-estar que não dissolve e deixa faltante a tentativa de qualquer desenho, é também o princípio de movimento. A identificação falha. O que torna possível o criar. A poesia transborda... e angustia! ...às vezes preciso de contorno. Alguém que me seja continente, que não me deixe esparramar demais...
Faz um tempo que ando pensando que talvez as palavras são feitas só para nos enganar. Faz sentido por um pensamento. Por dois até... tem esta coisa de querer confundir, sabe?! É um querer meio sem querer, pode até ser... mas sempre que lhe digo o que quer que seja, não importa o quanto procure encontrar as palavras adequadas, você nunca entende o que digo. Talvez mesmo porque as palavras sejam, já elas mesmas, impróprias. Ou talvez porque existe este vazio que fica entre mim e você, além do vazio entre mim e o mim que quer dizer o que eu quero dizer.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

 Hoje, agora. Quando saia do restaurante, fim de almoço, deparei com um cartaz do sesc que anunciava algumas conversas com escritores em algumas de suas unidades em cidades escolhidas. Uma destas cidades seria Londrina. Reconheci meio imprecisa aquelas duas palavras... Fabrício Carpinejar. Lembrei me então de outras duas André Xavier! Justamente quem me apresentara de relance Carpinejar. E agora, frente ao computador, buscando o blog de Carpinejar que tão saboroso se apresenta, deparei com esta crônica delicadamente precisa que posto abaixo, com licença, peço ao autor! Ao fim do texto segue a fonte para quem quiser degustar o blog de Carpinejar, frequentá-lo deliciosamente!


Arte de Paul Klee


Minha preocupação é primeiro fazer Vicente comer, já que é o menor. Depois é que posso saborear a comida. Tenho que cumprir a paternidade para me atender. Sempre chego atrasado aos talheres, a sorte é quando a comida não esfria.


Nunca reparei direito em mim - ninguém procura o espelho em movimento. Cínthya é que me alertou que em todo momento descrevo a mastigação do filho. Descrevo não, narro, sou um comentarista esportivo de sua refeição. A cada cinco minutos, espio seu prato e teço um julgamento de seu desempenho.


- Olha o ovo.
- Não esquece a carne.
- Mais um pouco de purê.
- Come mais!


A namorada pretendia dizer que eu era chato, encontrou uma maneira para que suportasse a crítica. Ela é meu espelho em movimento. Falou de lado, contida, como se limpasse o canto dos lábios com o guardanapo:


- Deixe que as coisas sejam naturais.


Eu vi que ela acertou, eu incomodava, repreendia, comentava, educava sem parar. Quase doentio. Serei franco: absolutamente doentio!


Ao experimentar um momento alegre, estou confessando que é alegre na largada. Defino antes de concluir. Se o filho é gentil, escrevo carta de recomendação. Se surge nervoso, atravesso a madrugada criando teses. Não há descanso. O certo e o errado estão no sangue.


Sou um pai insistente e cansativo. Necessário, porém desagradável. Acho que nunca mais serei espontâneo.


Descobri junto dessa observação que o amor dos pais não é mesmo natural. É teatral. Histriônico. Parece falso quando autêntico. Por isso, irrita na infância, enjoa na adolescência, ocupa metade das análises nos consultórios durante a fase adulta.


Pai não tem rosto, mãe não tem rosto, são caricaturas. Traços rápidos para apressar a identificação.


Não conseguimos nos controlar. É reiterar um cuidado até ultrapassar a redundância, é não abolir nenhuma prevenção. Nasce o filho e mergulhamos num estado de pânico completo, numa carência interminável, numa provação incurável. Viramos bulas, cartilhas, manuais, guias, catálogos, explicando de novo o que foi entendido.


Só é natural quem não ama. Somos despojados quando não temos interesse. Atuamos por comandos: sim, não, e deu. Nenhum desespero, nenhuma miséria no abraço, nenhuma insistência.


O que me põe a afirmar que um casal enamorado é formado de péssimos atores. Vai trocar juras ridículas, alternar diminutivos e apelidos, escandalizar restaurantes com exclamações e adjetivos.


Quando a gente se emociona é artificial, uma afronta ao bom gosto.


Enxergar uma família feliz consiste num espetáculo bisonho. Os pais apertam, beijam, afofam, cutucam, gargalham, reclamam e soluçam mais alto do que é aconselhável.


A passionalidade é uma imitação. O afeto é uma dublagem. Queremos tanto provar o que sentimos que passamos da conta.


http://carpinejar.blogspot.com/
Sua invisibilidade no entanto não o invisibilizava: encadernava-o meticulosa em um determinado corpo e uma voz particular e uns gestos habituais e alguns trejeitos pessoais que, aparentemente, eram ele mesmo. Por isso não é verdade que não o veriam. Veriam e viam, sim, aquela casca reproduzindo com perfeição o externo dele. Tão perfeito que nem ao menos provocava suspeitas aumentando as pausas entre as palavras, demorando o olhar, ralentando o passo daquele falso corpo.
Atrás da casca, porém, o cristal incandescia. [...]


Caio F. Abreu, Transformações.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

                                                                                                       [ansiedade.jpg]



volta então.... Não se perca de mim. Tira este pretenso sorriso de escárnio dos lábios e me olha de frente. Bem sabes o quanto desejo. Sabe. Sabe sim! Mas que farei? Chorar em prantos enquanto te enterras por estradas e trilhas inexploradas? E para quê? Sempre pertencemo-nos pois sempre nos mantivemos livres. Então vai. Só não se perca de mim. Não vamos nos perder. Então volta qualquer dia, ou diga que jamais voltará...

sábado, 26 de junho de 2010

Ela caminha pela rua com seu mp3 ouvindo zélia absorta num pré-pós-tudo-bossa-band. Passa pelas ruas do centro da cidade, cenário urbano, e imagina ser este o resumo de sua vida, o lapso de instante onde tudo seria mais real, mais mágico, mas com certeza mais fantasioso. Sozinha ela caminha imaginando que aquela música serve-lhe de trilha enquanto uma platéia oculta a observa – talvez Deus. Lixeiras de coleta seletiva que jamais são respeitadas e pombos que deixam suas marquinhas de fezes por todas as ruas, concentram-se embaixo das árvores deixando o chão quase todo branco. Esse desfilar incoerente e pretenso era sua alucinação. Na mortificante tentativa de suportar o dia-a-dia era preciso alucinar-se, como se embriaga com álcool etílico por não suportar o excesso de desespero entre a ínfima linha que marca o limítrofe esgotar-se de ser e o resistir. E pensava – um dia ainda termina. Este descompasso nesta cena onde era completa – um dia termina.
- Faz assim por mim então – conversava ela com o tempo – então faz assim por mim...
Pensou por um tempo, hesitou, pensou... enfim disse
- Olha-em-volta-vira-a-cabeça-vê-se-tem-alguma-janela-aberta-e-alguém-a-me-olhar!!
Ah... não tinha. Que pena, como queria que tivesse alguém a observá-la. Alguém-admirado-escondido-intrigado. Como queria. Não tinha. Descobre-se assim do véu que te escondia, descobre-se assim tão boba e infeliz.

domingo, 30 de maio de 2010

para ser lido ao som de "O mistério do planeta" - Novos Baianos.

Tenho andado por aí, sentindo. Tenho acordado com saudades. Receita de família, azeite, queijo ralado e vinho... me deixam querendo repetir, mas uma repetição diferente, em outro lugar. Filha do vento, ele me leva pela janela aberta e deixa-me em meio a marginal. Que coisa louca e linda, pontos infinitos de luzes vindo na minha direção, pode ser um tanto desesperador. Asfaltos depois, metros e esquinas e calçadas e viadutos e sopa e vinho e pão. A gente tenta, faz como dá... jogando meu corpo no mundo, mostrando como sou e sendo como posso!

sábado, 22 de maio de 2010

                                           

Sí­ cada dí­a cae, dentro de cada noche,
hay un pozo
donde la claridad está prisionera.

Hay que sentarse en el borde
del pozo de la sombra
y pescar la luz caí­da
con paciencia.


Pablo Neruda (Últimos Poemas)

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Acho que tenho uns afetos, que são dignos de serem vividos. E é estranho, ou é muito coerente, que eu me ponha a pensá-los e escrevê-los agora. Este cotidiano que transborda espaços e faz buscar sentidos. Às vezes alcançados, às vezes adiados. Estas 2 horas de sextas-feiras bem vividas. De pretensões projetadas para que se repitam, dão transparência, se não coerência e entendimento total. E quem disse que seria fácil? E quem disse que é preciso não ser? Talvez seja o desapego ao controle este facilitador. Tem coisas que não se diz; que não se nomeiam. Mas também porque não são precisas e já estão lá, porque se sabem sendo assunto sem dizer. Ninguém está falando do café...

quarta-feira, 19 de maio de 2010




Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere alguma coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro...

Clarice Lispector

terça-feira, 18 de maio de 2010

(Ysé) - Não vá.
(De Ciz) - Mas, estou-lhe dizendo, é absolutamente necessário!
...
(Ysé) - Amor, não vá...
Pela segunda vez eu lhe peço que não me abandone mais e não me deixe sozinha.
Você me censurava por ser orgulhosa, por nunca querer dizer nem pedir nada. Pois bem, fique satisfeito. Eis-me humilhada.
Não me abandone mais. Não me deixe mais só.

Amavelmente estúpido, ele não entende nada e acha que pode se vangloriar:
- Então, no fim, a gente tem de confessar que precisa mesmo do marido! etc.

É quando ela lhe sussurra uma dúvida:
Não confie muito em mim.

Ele não acredita nisso, Ysé tem que esclarecer:
Não sei, sinto em mim uma tentação...
E peço que não me venha essa tentação, porque não convém...

Pronto, o dito escapou. Não era contra os perigos da China que ela fazia seu apelo, mas contra a coisa mais próxima. Em síntese, Ysé lhe diz: projeta-me de mim mesma. Uma passagem suprimida na versão para o palco, e recuperada na nova versão de 1948, diz, de maneira ainda mais crua, para que serve um marido, pelo menos para Ysé:

Afinal, eu sou mulher, não é tão complicado assim.
De que precisa uma mulher
Senão de segurança, como a abelha atarefada na colméia,
Limpinha e bem fechada?
E não esta liberdade assustadora! Acaso não me entreguei?
E queria pensar que agora estaria muito tranquila,
Que estava garantida, que sempre haveria alguém comigo
Para me conduzir, um homem...


Trecho do livro O que Lacan dizia das mulheres, Colete Soller.
http://significantess.blogspot.com/
Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.

Selecção de Diego Mesa
In Memorial do Convento, Editorial Caminho, 43.ª ed., p. 121

http://caderno.josesaramago.org/2010/05/18/943/

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Acho que entendi. ...Mas também pode ser só empolgação. Equívoco, atropelamento ou confusão. Talvez tenha alcançado um entendimento breve e sutil. Leve e derradeiro. Um pouco infame para alguns. Tão fulgaz para tantos outros. Entendi! Ou não. O importante mesmo é que ainda não sei definir nem o que é, nem quando acontece. ENCANTAMENTO. Mais leve e sem aquela estaticidade colenta, pesada de quem tem que carregar o sofrimento e a presença ausente o tempo todo, que pesa. Sem ser Paixão, mas sendo tão apaixonadamente, que despede-se do ser Paixão, pra ser Encantamento leve e flutuante. Nem por isto leviano. Mas pequenamente aqui!
Creio que entendi sim. Que o encantamento deixa percorrer espaços. Não entendo o que é paixão. O que é apaixonar-se, nem quando ocorre. Quando acontece? Encanto-me quando digo me encantar. Quando minha boca diz as palavras tão leves e brincalhonas, que como bolhas de sabão soltas percorrem o ar e num 'ploc' explodem... respingando orvalho pelos arredores. Não sei como ocorre. Porque não tem de ocorrer sempre do mesmo jeito. E se não ocorre sempre igual, como vou saber quando vem? Vem quando eu disse que chegou! Só assim. E é tudo o que dá pra nomear...

quarta-feira, 12 de maio de 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

São pertinentes estas partículas intercaladas numa concatenação lógica. Isto nos dá que esta sequência seja uma frase. E, gramaticalmente falando, análise morfológica e sintática, as palavras não poderiam estar rearranjadas de qualquer outra forma. Talvez uma ou duas outras formas. Mas o que a faz ser o que realmente é? Vou me reservar o requinte de guardar esta questão.

            Adentrando no campo da sexualidade – assunto propriamente de interesse que me faz pulsionar o movimento desta escrita –,  temos algum cuidado ao trabalhar os termo, devido a conotação que possam ter, os encargos que podem carregar. Opção sexual não é uma opção! No campo dos estudos sobre Educação Sexual, área que atualmente tenho me dedicado bastante, defendemos o uso da terminologia Orientação Sexual. À exemplo da Rosa dos Ventos, instrumento utilizado na navegação, também a orientação sexual aponta para um pólo. A sexualidade é complexa, dizendo desta forma não se diz muito; mas se diz tudo o que se pode dizer em generalização. Multideterminada por fatores não totalmente esclarecidos e precisos, é a própria 'essência' do SER humano. A multiplicidade de criações e reinvenções do próprio corpo, da mente, da identidade, e de outros fatores que se somam num contexto cultural e político.

            Detendo-me mais focadamente, porque afirmei a defesa do uso de Orientação Sexual e não Opção? Simples, ao modo como o psicanalista Jacques Lacan falava da estrutura neurótica na constituição do indivíduo – não é louco quem quer! Afirmo: Não é homossexual quem quer! Tomo plano seguro baseando-me no trabalho da Dra. Mary Neide Damico Figueiró, professora do Departamento de Psicologia Social da Universidade Estadual de Londrina. O livro de sua organização, "Homossexualidade e Educação Sexual: construindo o respeito à diversidade (2007), de sua organização, aborda as questões que o intitulam pautadas em sólido conhecimento na área.

            Relatos de histórias pessoais de homossexuais repetem sempre um ponto em comum: o sofrimento. A homossexualidade é apontada como algo que faz sofrer. "É possível garantir que não é opção, primeiramente, porque ninguém escolheria o caminho do sofrimento, pois ser homossexual, na maioria das sociedades, é ser vítima de opressão, desprezo, desamor e incompreensão" (FIGUEIRÓ, 2007, p29). A homossexualidade não raramente é descoberta de forma muito penosa. O sujeito se vê sozinho com sentimentos que a sociedade desaprova e comumente com medo da perda do amor das pessoas que lhe são próximas. Opção?      Cito mais um fragmento do livro de Figueiró:

 

"não é uma questão de opção; é questão de sentimento, pois a pessoa sente desejo e, muitas vezes, apaixona-se por alguém do mesmo sexo, independente de sua vontade, de sua escolha, da mesma forma como um heterossexual sente atração e apaixona-se por uma pessoa do sexo oposto e não sabe explicar porque sente tal atração, não conseguindo mudar essa situação, mesmo que quisesse." (2007, p28)

 

O psicanalista William Peres (apud FIGUEIRÓ, 2007, p40) nos traz uma visão muito interessante quando afirma que, quando pensamos em homossexualidade, nos ocorre em pensar no sexo entre duas pessoas iguais; e que necessitamos dar um passo em direção a pensar o amor entre duas pessoas iguais, apontando como sendo um obstáculo a isto os nossos preconceitos. O sentir não pede RG, não questiona seu endereço, situação social ou quaisquer outros pré-requisitos. E a sensibilidade física e emocional do humano é construída.

Mary Neide se vale da citação de Ann Landers, uma colunista americana, quando diz que poucas coisas na vida são cem por cento, e no campo da sexualidade trabalhamos com nuances. Isto diz que se traçarmos uma linha horizontal que vai de um ponto A, que seria homossexualidade, até um ponto B, indicando heterossexualidade, não raro, os homens e mulheres tem deslizamentos por este eixo durante sua vida. É uma hipótese interessante que o próprio Freud defendeu num momento de sua construção da teoria psicanalítica, o da potencialidade bissexual do ser humano; posteriormente abandonando-a por abordar a sexualidade a partir de outra perspectiva. Mas posso citá-lo no que diz numa carta à uma mãe que lhe escreve sobre seu filho: Homossexualidade não é seguramente uma vantagem, mas não há porque se ficar envergonhado, com isso, pois não é vício, nem degradação e nem pode ser classificada como uma doença, (2006, p?).

José Ângelo Gaiarsa, também psicanalista, defende que "o corpo humano, tanto do homem como o da mulher, é basicamente semelhante na forma, na consciência, no calor e na sensibilidade", (apud: FIGUEIRÓ, 2007, p41). Caio Fernando Abreu, escrito e homossexual assumido é muito feliz quando poeticamente diz "só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade – voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ter genitália igual, e isso é detalhe".

Ao abandonar a perspectiva de abordar o Inconsciente relevando importância para os papéis sociais identitários neste eixo, Freud dá um salto em reconhecer a potência do desejo. Que de desejo e por ser desejo, em si, simplesmente deseja.

Houve um período em que a homossexualidade era considerada uma doença, integrava a CID-10 (Código Internacional de Doenças) e o DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais), ambos instrumentos utilizados para o diagnósticos de psicopatologias e transtornos desta ordem. Após longa luta por parte de movimentos relacionados, e algum avanço na perspectiva cultural,  homossexualidade saiu destes manuais e hoje é compreendida como um elemento identitário da construção do papel social e da compreensão de si do indivíduo. Constitui em crime ético o profissional, psicólogo/psiquiatra, que abordarem a sexualidade como uma patologia a ser curada.

Neste movimento, percebemos a história se fazendo e refazendo espaços e afetos. Os preconceitos vão sendo superados, o que demonstra algum... avanço. Demonstra ainda o quanto a determinação de nossos tabus e visões são culturais e sofrem influência de elementos e momentos históricos. Defendo, neste ponto, o caráter mutante e não estático da história, que permite-nos rever antigas posições. Permitindo nos com o tempo um outro conhecer. E cada coisa não é o que é, mas o que cada época, geração, faz dela. A própria homossexualidade tem sua história, que por extensa, não abordarei aqui. Apenas insiro a pincelada para ilustrar, citando que há, num conto de Platão, alusão a homossexualidade, (COSTA, 2005). Neste conto de O Banquete, "Assim surgiu o amor", que compõe o primeiro de uma série de contos de uma coletânea sobre a temática sexual; ele fala do mito da alma gêmea, mas aborda a possibilidade de reencontro com esta parte que lhe foi tirada, sendo ela de sexo oposto ou semelhante. Platão teve sua homossexualidade dita não pela primeira vez neste texto. Assim como outros, considerados grandes homens da história, como Michelangelo e Leonardo da Vinci, à título de exemplos.

Retomando a minha pretensa introdução gramatical. Assim como a língua é uma convenção social, isto é, sua morfologia e a estrutura que a torna inteligíveis. Também os processos identitários. Por chamarem-se papéis, podemos questionar de sua rasura... re-fazer histórico... É fato que as sociedade vão se tornando mais permissíveis conforme vão clareando conhecimentos sobre os fatos antes desconhecidos – e nisto a ciência presta grande auxílio. Concluindo, faço uso das palavras do Grupo Gay da Bahia, "As pessoas geralmente temem aquilo que não entendem, e odeiam aquilo que temem", (FIGUEIRÓ, 2007, p28).

 

 

Uma nota sobre Ser e Sentir: O Ser está intrincado, indissociável dos sentidos, dos afetos. Em todas as suas conotações. Há ser sem sentir? O que será  que não sente... o que sente aquilo que não é?

 

 

Bibliografia

ABREU, C. F. Citação in: http://osapatoblog.blogspot.com/2008_04_01_archive.html

COSTA, F. M. As cem melhores histórias eróticas da literatura universal. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

FIGUEIRÓ, M. N. D. Homossexualidade e educação sexual: construindo o repeito à diversidade. Londrina: UEL, 2007.

FREUD, S. . Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol VII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O amor é que é essencial. O sexo, um acidente, pode ser igual, pode ser diferente.

Fernando Pessoa, poeta e bissexual assumido.



          São derradeiros os sotaques que podemos ouvir esperando um ônibus, esperando alguém. De algum modo, são marcadores que trafegam pelos espaços da memória - jamais passado - muito mais desejo. E estas marcas percorrem traçados projetadamente expostos, projetos de um desconhecido que me habita.
          Era de noite já quando eu me dei conta de que estava sozinha e parada na beira da calçada, na rua, olhando o meio-fio que úmido reluzia por conta da luz que aquele poste lhe refletia. Poeticamente deprimente, este cenário desenhado em tons de azul, clareava... e azulava claramente uma manhã que viria. Decidi-me por sentar e ficar ali. Não me decidi o que faria em seguida - acredito que não me ocorreu pensar. E fiquei ali, não sei ao certo quanto.
          E quando novamente me dei por mim, minha embriaguez passava e o sol dava indícios de que logo surgiria. O cheiro de pão vinha daquela tradicional padaria de esquina que toda cidadezinha tem. Não havia há este tempo - Século XXI - leiteiros de porta em porta. Mas o jornaleiro, menino de bicicleta, ainda arremessava o jornal para temor das janelas da vizinhança.
          Bati fortemente as mãos nos joelhos e me pus a levantar. Me pus a caminhar. O cheiro de pão ficava para traz e aquele ar fresco demais para um paulistano me enchia o peito. Quase chegava a sufocar. Eu tinha pretensões e não sabia. Desci a rua Humaitá e quando estava já vendo o semáforo, virei à direita. Entrei por aquele bosque que deixava o ar da manhã ainda mais puro e difícil de respirar. São uns impulsos matutinos de quem não sabe explicar... Nunca li Freud com afinco!
          Passada totalmente a embriaguez. Na solidez dos sentidos sóbrios... dava 10 da manhã. Eu caminhava por ondes e quandos, sem entender porquê. Apenas um impulso ao movimento. Um desejo de que as pernas flexionassem... de fazer mover, de espacializar o desejo. Isto é tudo. E diversos sons, sotaques me acompanhavam. Eu caminhava pelos caminhos que um dia já passarei!

domingo, 2 de maio de 2010

A peça “Maçã caramelada”, de André Rezende, é um convite para que façamos do passado uma criação dinâmica no presente e uma reatualização no futuro. Maria Bitarello - (13/03/2009)
Se pensarmos a velhice como a constante presença do passado, e a infância como a estrita projeção do futuro, a vida deve ser o que acontece no meio, entre estas duas esperas; uma perda dos sonhos e um acúmulo sempre progressivo de memórias. O poeta mineiro, Murilo Mendes, tem uma frase em que diz que “a memória é uma construção do futuro, mais que do passado”, e a considero bastante pertinente se aplicada à leitura da peça de André Resende, Maçã caramelada, publicada pela Editora Cubzac (em uma edição digna de ser adquirida).
No texto – curto e pontual –, Eusébio, Greta e Adílio fazem de um encontro, ao acaso, em uma antiga emissora de TV, uma reconstrução do passado e uma recriação para o futuro. A partir do acervo da emissora, que está prestes a se perder, estes três personagens paradigmáticos pensam, conversam a respeito e nos fazem pensar – nós, os leitores – sobre a persistência da memória, o legado a que damos continuidade e que seguirá quando já não mais aqui estivermos, o mal-estar provocado por nossas escolhas e consequentes renúncias que implicam e o papel que o acaso, que a coincidência, tem em nossos encontros e trombadas entre a infância e a velhice, inclusive (e sobretudo) este que ocorre entre os três e que conduz Maçã caramelada.
Adílio, em busca das projeções da infância, nos obriga a repensar a construção da memória e se em nossas estórias existiu algum dia – ou existirá – a História, ou se não passam todas de interpretações, passíveis de cair nas peças em que nos prega a memória, tão esquecida e tão passível de criatividade espontânea, recriando-se. Seria por isso menos válida?
Greta personifica nosso mal-estar contemporâneo, nossa vertigem de possibilidades, a eterna indagação inútil sobre o caminho que não seguimos, as escolhas que não fizemos e a ansiedade que emerge de sua irrealização material, porém acompanhada de sua existência vívida em nossas projeções do que seriam memórias de um fato irrealizado. Reflexo e modelo do que passamos todos nós, homens e mulheres pós-modernos.
Eusébio amarra os dois extremos, o arrependimento e a insaciedade, a projeção e a nostalgia, em um personagem ciente de que “sem registrar os momentos da vida, o passado fica mais difícil de lembrar”, mas tampouco caindo na tentação de acreditar que “porque existe não quer dizer que é eterno”. E, acima de tudo, prezando e pregando o poder da coincidência, “a única coisa em que [conseguiu] acreditar e entender como possível”, “algo revelador das oportunidades que estão em nossa volta”, pois, justamente por “parecer acasos […], revelam um mundo desconhecido que, no entanto, não estava perdido, muito menos era inexistente”.
A chave
Tenho para mim que a chave está em Zaldok. O personagem que nunca sabemos ao certo se existiu, e muito menos quem foi, é uma pessoa distinta na memória de cada um, às vezes mais que um para uma mesma pessoa. Zaldok, personagem associado a valores mágicos de nossa infância, não envelheceu, não morreu, e tem acesso ao lugar onde nossa entrada não é permitida: o futuro.
Se para Eusébio “depois daquela maçã caramelada, tudo foi sorte na vida”, o autor nos diz também que, sim, ele, como nós, entende e sente a angústia da escolha, o medo do esquecimento, a preocupação com a memória no futuro, mas, acima disso tudo, está nos dizendo, nas palavras de Eusébio, que “[aceitemos] as coincidências”, que façamos do passado uma criação dinâmica no presente e uma reatualização no futuro, que deixemos as recordações museológicas de lado, pois não existe nossa História oficial. Seu (meu) passado está tão em transformação quanto o futuro, e aprisioná-lo no arquivo é privá-lo de vida, é assassiná-lo. A maçã caramelada é o presente de Eusébio a Adílio e Greta, é o presente de André Resende a nós.

http://diplo.org.br/2009-03,a2825

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ando tendo algumas pretensões. pretensões de virada. e transmito as promessas que me fizeram amigos... prometo 24h de prosa musicada. de musicidade proseada nos cantos que contam os contos noturnos de uma noite paulistana! teremos de garimpar. mas haveremos de ser recompensados com o ouro da manhã. raios dourados queimando a retina, ofuscando o olhar, o pensamento, o cotidiano dos dias corriqueiros...     
...na virada, parece que a vida parou. porque o mundo todo parou pra você!

domingo, 4 de abril de 2010

          Há uma linha tênue sobre o limite. Há um acordo não dito, subentendido, sobre esta linha que desenha até onde ir. Entre amigos, às vezes esbarramos nesta linha com certa improvisação. E fica impreciso e suspenso por certo tempo este não-dito acordado, selado pelas partes sem o uso das palavras propriamente. São obscuras as clausúlas do contrato, mas ambas as partes assinam o acordo sem muito pestanejar. Não há muitas delongas sobre o que pode ou não ser feito. Cada um vai percebendo, à seu ritmo e maneira, os contornos da amizade que se figura. Com alguns significados próprios atribuídos, não há fuga deste vacilo, mas a estrutura permanece de pé, íntegra, mesmo diante de alguns rumores e rachaduras. De modo costumeiro, todos coincidem em esforços para que se mantenha a vitalidade, a energia do monumento.
          Um certo momento, um instante de deslize, e abre-se uma fenda. Algum limite obscuro e ao mesmo tempo tão reluzente e claro, foi transposto. Transbordamento. É de alguma covardia atravessar certas trilhas de que não se tem direito, assim, num susto. Guardar a idéia na cabeça e soltá-la de uma vez sem precedente. Provoca no outro estranhamento. Fico perguntando de onde surgiu aquilo, por que nunca visei? O estranhamento ainda traz um plano pântanoso, não se pode firmar os passos no chão. E o pensamento quer rever cada conversa, cada olhar, cada troca de palavras, e descobrir o que mais era ilusório, ou não era parecido com o que parecia...
          Vou fazendo uma versão antiga pra contrastar com a atual. Tentando num exercício de previsão, e de retrocesso, ressignificar o passado e subtrair das lembranças o que sei somente agora. Por chamar de covardia, aí coloco a dose de ressentimento que acho mínima - pois tento controlar essa dosagem fatídica, um pouco comedida. É um pouquinho triste, um pouquinho chato e um pouquinho dói [no orgulho principalmente]. Faz escuro mas eu canto... Amanhã já vai passar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Há tempos que não me visto com a velha roupa. Àquela que me aconchegava na postura serena e denota certa responsabilidade. Há tempos que sabia que chegaria outro tempo, um contínuo deste, mais outro ainda, e que pediria para que me vestisse. Não pensei que chegaria tão depressa. Agora bate a porta e traz uma ruptura. Sobe este degrau - mas depois de vestir-se com aquela velha-nova roupa de postura serena.
Algumas placas indicam ruas por onde o pensamento pode querer caminhar. Na dúvida, adio a vestimenta tentando, pelo olhar, adiantar se me cairá com harmonia. As cores sóbrias, a textura lisa, o modelo singular e cheio de novos contornos. Os dedos passeiam pelas folhas de papéis riscados, rascunhos, textos lidos e há ler...
Uma idéia me vem à lembrança: 'e se eu não mais caber naquela nova roupa?' Não havia me decidido mentalmente num exercício de previsão sobre o bom caimento da peça. Uma certa insegurança e o conhecimento de que a velha roupa colorida é de Belchior. Mas quando já não caibo mais nas roupas que eu cabia... Arnaldo Antunes.
O peito aberto já não adia, resiste receoso o último segundo, mas veste-se sobriamente e sai, em direção à porta, mas ainda pensa sobre a cor, o tom... e o que fará para acomodar-se ou acomodar as antigas tendências nesta nova forma. Sintonia é uma palavra difícil, tem conflito, mesmo subscrito.

segunda-feira, 22 de março de 2010

para L., flô...

          A palavra crônica tem durante anos me remetido a textos geniais. Tanto por me remeter à literatura, à qual logo remeto Caio F. Abreu e suas crônicas, seus textos de uma sensibilidade e agudês lindas; quanto a outros autores também adorados. Há ainda aquelas pretensas linhas que eu nuamente escrevo, despida dos semblantes, oculta por um perfil virtual ou algum pseudônimo. Há de cronicidade nesta vida um pouco de tudo. Poesia no cotidiano. Bancos de areias, olhar sutil, sereno de madrugada...
          A escrita me acompanha desde uma tenra época. Recordo-me em chatas aulas do ensino fundamental, onde minhas amigas vinham me relatar casinhos amorosos [na minha época de criança - inocentes] e me pediam pra escrever alguma cartinha de amor. Eu, e minha vaidade subentendida, escrevíamos como se o romance fosse meu. Mais tarde, alguns outros versos: poemas. Mais adiante, alguns fragmentos, textos curtos, não inacabados, são em sua essência fragmentos. Não são pedacinhos, não faltam em nada, são em si todo, mas são fragmentos. E contos!
          E há uma definição técnica para crônica mas, basicamente, que remete à literatura, aos escritos gostosos.
          But... e o desgosto agora é que surge. Eu resolvi por um dia - sabe lá o que se passava na minha cabeça!! Resolvi cursar psicologia. Área da saúde [embora tenha gente 'maluca' que ache que não!!rs]. E nestas áreas pretensas a tratar do normal e do patológico, tem uma palavrinha que incomoda. Uma coisa realmente cha-ta. E já me vão entender.
          O crônico é um par de polaridade ao que se opõe o agudo. Comumente, se associa uma dor aguda, por exemplo, na linguagem corriqueira, à uma dor pontuda, pontual. No entanto, em linguagem técnica, uma dor aguda trata de uma dor sim pontual, mas no sentido de ser uma situação ocasional, não repetitiva e não permanente. Por aí já iniciamos uma delimitação do que se trata ao falarmos em cronicidade [quando não dizemos da literalidade poética das palavras...]. Esta cronicidade - que não deixa de ser aguda, no sentido que alfineta. Permanente e repetitiva. Uma insistência. Uma irrupção. Uma chatice.
          Me ocorre agora um pouco de tristeza correlacionar dois sentidos tão distintos, presos na mesma palavra. A cronicidade lúdica das palavras leves, dos sorrisos nas letras e dos versos em prosa... em crônica. De adoecer a palavra neste contexto de cha-ti-ce crô-ni-ca! Tem nome?

*levemente modificado
 

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